Lente na Criação: Descartando pessoas

                                         2 de setembro de 2020

                                         por Paul Jeffrey   National Catholic Reporter (EUA)   traduzido de inglês

 

Conheci esses meninos uma noite em um abrigo administrado por uma igreja em Chennai, Índia. Na manhã seguinte, eles me levaram para onde eles passam seus dias - o lixão da cidade, com suas montanhas de lixo fumegante. Jornalistas não são permitidos lá, então os meninos se juntaram para me levar sem chamar a atenção dos fiscais.

Essa cooperação faz parte de sua vida como catadores. Enquanto vasculham o lixo, eles compartilham com entusiasmo notícias de pistas promissoras sobre sucatas, que têm um preço mais alto, ou mesmo comida que ainda é comestível. Freqüentemente, eles cavam lado a lado, cooperando enquanto reviram o lixo.

Em muitas partes do mundo, são os pobres que separam nosso lixo, até mesmo o que exportamos para outros continentes. Enquanto buscam o sustento em nosso excesso, muitas vezes são invisíveis para nós e - como nosso lixo - descartáveis.

Em sua crítica à disseminação da "cultura do descartável", o Papa Francisco escreveu em Evangelii Gaudium: "Os próprios seres humanos são considerados bens de consumo para serem usados ​​e depois descartados".

Nos Estados Unidos, a população gera 1,996 kg de resíduos sólidos urbanos por pessoa por dia.

[De acordo com dados do estudo 'Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, divulgado no ano 2016, o goianiense produz 0,966 kg de lixo por dia, quantidade parecida com a média do Brasil, que é de 1,040 kg por habitante. Brasília é a campeã, com 1,5 kg de resíduos coletados por dia, seguida do Rio, com 1,4 kg/dia, e São Paulo, com 1,2 kg/dia.   Os números são ainda mais assustadores quando levamos em conta que o país já está no mesmo patamar da Europa na produção de resíduos, mesmo tendo uma renda per capita quatro vezes menor].

Nosso planeta geme sob o peso do que Laudato Si  em “Cuidar de Nossa Casa Comum", denomina nosso "desejo desordenado de consumir mais do que o realmente é necessário". E nossa vida espiritual geme sob o peso de nosso egoísmo.

Como seria um ano de jubileu para essas crianças no lixão? O que eles sonham além das montanhas de lixo? Como podemos viver nossas vidas de modo que eles também vivam? Para curar o planeta, devemos reduzir nosso consumo a níveis sustentáveis ​​para todos.

Para reflexão e ação:

Em um caderno, registre tudo o que sua casa joga fora por uma semana. Anote que tipo de resíduo é e pese-o, se tiver uma balança. Quanto do desperdício da sua semana consiste em restos de comida? Plástico? Papel? Outros itens?

Como você poderia reduzir isso? Acompanhe as próximas semanas de  “Tempo da Criação”.

Você consegue reduzir o seu lixo doméstico?

 

[Paul Jeffrey é um dos fundadores da Life on Earth Pictures e mora em Oregon, EUA. Você pode segui-lo no Instagram.]